Primeiro de Maio, o dia que definiu minha vida!

Amigos,

Hoje é primeiro de Maio, Dia do Trabalhador.

Ao longo de meus 53 anos participei de dezenas de comemorações desta data tão importante para a classe operária. Comemorações em praça pública ou em ambientes fechados.

Como massa ou como dirigente…

Em São Paulo, São Bernardo do Campo ou Mongaguá.

Lembro de uma em especial, na Praia Grande, na EE Cidade da Criança.

Pelo planejamento anual da escola, cada professor era responsável por organizar a comemoração cívica de cada data, e eu fiquei como organizador pelo dia do trabalhador por 3 anos seguidos.

Nossos eventos saiam do lugar comum das comemorações escolares.

Eram comemorações de fato do dia do Trabalhador!

Sempre pela ótica do menos favorecido, sempre pela lente da classe trabalhadora.

Porém, no lugar de discursos inflamados, havia teatro, poesia e música.

Sempre com a participação dos alunos, todos crianças de 12 a 15 anos.

E sempre um jogral para explicar o significado do 1º de maio.

Lembro que certa vez, fizemos uma encenação mostrando os problemas do cotidiano do trabalhador no final dos anos 80… Falta de emprego, falta de moradia, falta de perspectiva ao jovem e o descaso com o aposentado…

Cada aluno/aluna tinha sua fala, porém esbarrávamos num problema. Quem seria o aposentado?

E eles acharam a solução: Eu seria o aposentado, que deveria entrar no palco (sim, a escola tinha um anfiteatro), segurando um cartaz questionando a previdência social…

Para que eu ficasse aparentando mais idade, eles tiveram a a brilhante ideia de jogarem talco nos meus cabelos e barba (até então sem um fio sequer grisalho).

Toda a escola presente, diversos pais.

Todos acompanhando com muita atenção o que acontecia no palco.

Então, foi a munha vez: De modo totalmente inesperado para todos, lá fui eu, de cabelo e barba “esbranquiçada” subindo ao palco.

Foram 20 a 30 segundos de presença de palco, mas o público caiu na gargalhada… ninguém imaginaria que um professor participaria com os alunos, e além disso,  meu “disfarce” de velho não convencia uma alma sequer…

Isso deve ter sido em 1989 ou 1988.

Mas o primeiro de maio que definiu minha vida aconteceu antes.

Foi em 1980.

Tinha 19 anos e estudava em São Bernardo do Campo.

Os Metalúrgicos do ABC estavam em grave e o Sindicato sob intervenção da Ditadura Militar.

O cheiro de pólvora no ar era tão intenso quanto a presença dos operários nas assembleias no Estádio de Vila Euclides.

E prometia-se um 1º de maio histórico nas ruas de SBC

Imagem de São Bernardo do Campo no dia 1º de maio de 1980
Imagem de São Bernardo do Campo no dia 1º de maio de 1980

Seria o meu primeiro “1º de Maio” de massas e nas ruas.

Seria, mas não foi.

Na mesma época estava “ficando” (como se diz atualmente) com uma colega de Faculdade.

Na véspera do feriado, uma conversa “daquelas”…

Isto é, era momento de definir nossa relação.

Eu, com 19 anos tendo que definir algo…

Eu que sentia que podia participar de um dia histórico, um dia que tinha horário para começar e não tinha para acabar, e que ninguém saberia ao certo como terminaria…

Até que tomei minha decisão:

No lugar de São Bernardo do Campo, Diadema.

No lugar dos companheiros de luta, minha namorada!

E lá fomos nós, no dia primeiro de maio de 1980, para o cinema começar a “namorar oficialmente”.

O filme não poderia ser qualquer um, mas “Z” de Costa Gravas.

E aquele momento de 1980 perdura até hoje…

Trinta e quatro anos depois continuo com a mesma namorada, numa caminhada de diversos momentos felizes e algumas tragédias.

Manter uma relação nos momentos felizes é muito fácil… Duro é superar as dificuldades econômicas (naturais na vida de professores), as tragédias e as peças pregadas pela vida.

São 34 anos de companheirismo, de construção de uma vida em comum e de diversos outros primeiro de maio. Juntos nas praças ou em casa. Mas, sempre juntos!

Um amigo certa vez me disse a seguinte frase: “Só há um motivo que faça um homem abrir mão da paixão política/revolucionária: a paixão por uma mulher”. (Se a frase não for essa, é com esse sentido).

De certa forma, isso que aconteceu comigo…

Se eu tivesse optado por estar em São Bernardo teria definido um caminho na minha vida…

Porém escolhi um outro caminho, uma outra paixão…

Optei pela Katia, mantendo a paixão política/sindical em outro nível.

E fiz o correto!

Katia: 34 anos juntos!

E quem sabe outros 34 pela frente…

Uma foto de 2004. Com os 3 filhos a nossa volta. Dias felizes.