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Uma história do Santos FC: Quando o alvinegro humilhou Pinochet.

Amigos,

Vou aproveitar o espaço do blog para contar algumas passagens da história do alvinegro de Vila Belmiro, o Santos FC. São histórias baseadas num dos maiores arquivos de jogos do Santos FC… modestamente, o meu… um arquivo continuamente atualizado a mais de 30 anos.

Começaremos pelo “dia que o Santos derrubou Pinochet”.

Que o Santos já foi capaz de interromper guerras civis, de provocar faltas coletivas ao trabalho, ou “fechar o comércio”, todos os santistas conhecem. Mas, uma história pouco comentada é aquela que o Santos FC provocou a humilhação do sanguinário Ditador Chileno, o General Augusto Pinochet.

O caso inicia-se em 1973, mais precisamente em 11 de setembro de 1973, quando Pinochet lidera o bombardeio ao Palácio Presidencial Chileno, provocando a morte do Presidente eleito livremente pelo povo chileno, o socialista Salvador Allende. Com o golpe, os militares executam um plano de prisões e mortes em massa dos aliados do Governo legalmente constituído, chegando ao cúmulo de manter mais de 5.000 pessoas presas (algumas fontes indicam até 10.000 pessoas) no lendário Estádio Nacional de Santiago.

Nesse estádio, em 1962, a Seleção Brasileira tornava-se bi-campeã mundial (com Gilmar, Mauro e Zito em campo, mais Mengálvio, Coutinho, Pepe e Pelé –  contundido – no banco),  e onde o Santos já havia sido campeão dos hexagonais de 65 e 70, além do octogonal de 1968.

Na mesma época estavam sendo jogadas as eliminatórias para a Copa do Mundo de 1974,  e pelo capricho dos deuses do futebol, a tabela marcava: Chile x U.R.S.S.

Local: Estádio Nacional de Santiago.


Mesmo após empatar por 0x0 em Moscou, a forte Seleção Soviética poderia vencer o bom time chileno de Figueroa e Cazsely, em Santiago.
Porém, os dirigentes soviéticos recusavam-se a jogar num estádio transformado em campo de concentração, onde os militares chilenos prenderam, torturaram e mataram (no centro do gramado,  4 em 4 presos de cada vez) intelectuais, artistas, sindicalistas, socialistas e comunistas, entre eles o compositor Victor Jara (que além de compositor, era músico, teatrólogo, jornalista e comunista).

Victor Jara teve as mãos amputadas durante as torturas sofridas e foi morto a tiros, no interior do Estádio Nacional.

Os soviéticos afirmavam que jogariam em qualquer lugar no Chile, menos no Estádio Nacional de Santiago.

O Presidente da FIFA, o inglês Sir Stanley Rous, nem quis ouvir os argumentos soviéticos e manteve o jogo no Estádio Nacional.

A União Soviética prometeu e cumpriu: não viajou até Santiago. Sendo assim, o Chile iria classificar-se para a Copa da Alemanha sem jogar, como de fato, aconteceu.

Mas, os dirigentes da Federação Chilena de Futebol, em sintonia com os militares golpistas, queriam uma festa para celebrar a vitória do Chile frente aos “comunistas soviéticos”. E para não ficar sem futebol, convidaram o Santos FC para enfrentar o Selecionado Chileno, com a TV local transmitindo para a Europa e América.

Por um bom punhado de dólares (30.000 dólares americanos), os dirigentes santistas aceitaram o amistoso, e a delegação do alvinegro praiano seguiu viagem para Santiago.

Lá chegando, o Santos entrou no então sinistro estádio Nacional de Santiago.

Apenas 25.000 presentes (os tempos não eram favoráveis a grandes aglomerações, e o comparecimento ao estádio Nacional poderia trazer recordações nada agradáveis à boa parte do povo chileno). Os santistas, alheios aos problemas políticos, defendiam a imaculada camisa branca contra “la roja” (como a seleção chilena é conhecida).

Para o desgosto do ditador Pinochet, o jogo terminou com uma grande goleada santista – 5×0, estragando a festa preparada pelos cartolas e militares Chilenos e sendo uma saborosa vingança daqueles que abominam a violência e a brutalidade (lembrando episódio semelhante acontecido em Berlim, nas Olimpíadas de 1936, onde o atleta negro Jesse Owens ganhou medalha de ouro nas provas de atletismo, com Hitler no estádio).
Interessante saber que a imprensa brasileira pouco divulgava os motivos soviéticos, insistia que seria por meros caprichos políticos, por não concordar com o governo chileno. Era uma época de censura nos meios de comunicação, além do fato de que o regime de Pinochet era simpático aos militares brasileiros…

Os dirigentes da Federação Chilena pretendiam homenagear o Rei do Futebol… e Pelé não jogou pelo Santos FC nesse dia, alegou uma contusão. Ou será que se recusara a participar de tal evento?

Bom, se não pôde ou se não quis, apenas o Rei do Futebol poderá esclarecer.

O que fica para nós, santistas, é que além golear uma das principais seleções da América do Sul, o Santos FC humilhou e estragou a festa preparada ao Ditador, para a alegria daqueles que gostam de futebol, da liberdade e da vida.

Segue a ficha técnica da partida:

21/11/1973 Santos FC  5×0 CHILE
Local: Estádio Nacional – Santiago (CHIL)
Competição: Amistoso
Público: 25.000
Árbitro: Rafael Hormozabal
Gols: Nenê 21′ e 38′, Edu 26′ e Eusébio 29′ e 65′
SFC: Cejas; Hermes, Marinho Perez, Vicente e Roberto; Carlos Alberto Torres e Leo Oliveira (Nelsi); Mazinho, Eusébio, Nenê (Cláudio Adão) e Edu.
Técnico: Pepe
CHILE: Olivares; Machuca, Figueroa, Quintano e Arias; Rodriguez e Valdez (Yavar); Reinoso, Cazsely, Ahumada e Crisosto (Velez).

E para encerrar, um pequeno trecho (já traduzido à Língua Portuguesa) do último poema escrito  por Victor Jara, feito no interior do Estádio Nacional, pouco antes de ser assassinado:


“Somos cinco mil
nesta pequena parte da cidade.
Somos cinco mil.
Quantos seremos no total,
nas cidades e em todo o país?
Somente aqui, dez mil mãos que semeiam
e fazem andar as fábricas.


Quanta humanidade
com fome, frio, pânico, dor,
pressão moral, terror e loucura!


Seis de nós se perderam
no espaço das estrelas.
Um morto, um espancado como jamais imaginei
que se pudesse espancar um ser humano.
Os outros quatro quiseram livrar-se de todos os temores
um saltando no vazio,
outro batendo a cabeça contra o muro,
mas todos com o olhar fixo da morte.


Que espanto causa o rosto do fascismo!”