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Uma aventura na África – 45 anos da excursão mais incrível do SFC

Guerra de Biafra (1969) - Região Oriental da Nigéria

Janeiro de 1969.

Parecia que o Brasil e o Mundo estavam de cabeça para baixo.

Aqui, o AI-5 ceifava cabeças, Vandré embalava multidões e Roberto Carlos vivia em ritmo de aventura. Lá fora, os jovens estudantes continuavam tentando a mudar o mundo, onde quer que estivessem,  fosse em Washington ou Saigon, Paris ou Praga, Caracas ou Roma, Londres  ou San Francisco.  Algumas vezes na vanguarda dos movimentos sociais, outras vezes apenas resistindo à repressão ou a violência do Estado.

No futebol, um time sulamericano continuava reinando em seu País e preparava-se para ser o melhor do Mundo novamente. Depois de um ano perfeito, quando conquistou todas as competições que participou, o Santos FC preparava-se para um giro pelos campos africanos.

Não seria a primeira vez, visto que o alvinegro já visitara o continente negro em 1960, 1966 e 1967.

Com um roteiro prevendo jogos no Congo, Nigéria, Argélia e Moçambique a viagem se estenderia por 25 dias, iniciando em 17 de janeiro e terminando em  9 de fevereiro.

Contando com uma delegação de 18 atletas (Gylmar, Laércio, Turcão, Ramos Delgado, Oberdã, Marçal, Rildo, Joel Camargo, Negreiros, Lima, Edu, Amauri, Toninho Guerreiro, Douglas, Pelé, Abel e Manoel Maria) o SFC parte para fazer história na África.

A primeira parada foi na cidade portuária de Point Noire, na República do Congo. O adversário seria uma seleção local. O estádio lotado viu todos os 18 craques santistas em campo desfilarem a categoria que possuíam e marcarem 3 gols. Apesar da derrota por 3×0, os torcedores locais saíram satisfeitos, pois diziam ao final da partida: “Perder para o Santos não é perder!”

Dois dias depois uma esticada até a capital, Brazaville, para enfrentar a seleção nacional do Congo, no Estádio da Revolução. Oitenta mil pessoas lotavam o estádio. Nas tribunas a presença do Presidente da República do Congo, Ngouabi. O árbitro congolês (Nkoukou) permitia a violência dos jogadores locais contra os santistas e ao final do 1º tempo, revoltado, Pelé aproxima-se de Nkoukou e exclama: “Le macth est fini!”. O Presidente do Congo, vendo os fatos, manda um bilhete para o árbitro: “O Santos está aqui para dar um espetáculo e eu quero assistir esse espetáculo. Você tem que apitar direito o segundo tempo. Se isso não acontecer, você será preso”.

Esse, literalmente, mandava prender e mandava soltar.  (Marien Ngouabi)
Esse, literalmente, mandava prender e mandava soltar. (Marien Ngouabi)

Recado dado, recado recebido. Logo no início da etapa final, o árbitro marca um pênalti, que Toninho converte. Em seguida, Pelé marca de falta e acaba a violência em campo. No final, vitória por 3×2.

Após atuar em Brazaville, uma incrível travessia de barco pra Kinshasa na República Democrática do Congo.

Brazaville e Kinshasa são separadas pelo Rio Congo. Uma capital de frente para outra…

Em 1969, os dois países estavam rompidos diplomaticamente. A República do Congo (RC) tinha um Governo de orientações marxistas, enquanto que a República Democrática do Congo (RDC) era alinhado com os governos pró-EUA, algo no estilo Coréia do Norte e Coréia do Sul. Desta forma não havia ligação fluvial entre as capitais, sendo proibido que qualquer pessoa atravessasse o Rio Congo em qualquer direção.

Mas, como Pelé e seus súditos atravessariam a fronteira?

Aqui surgia a primeira grande aventura… Num trabalho intenso de bastidores políticos, surge uma trégua na tensão diplomática. O exército da RDC manda uma barca para buscar os craques santistas, e num gesto de boa vontade o Governo da RC permite que a mesma  atracasse em seu território. Em outro momento tal situação significaria uma declaração de guerra, porém era o Santos, era Pelé, eram os deuses negros do futebol que estavam no cais de Brazaville. Desta forma, o futebol provoca seu primeiro milagre na África: Tiros ou bombas não foram ouvidos e nem foram lançadas… A paz estava sendo construída. Era a missão de paz  e alegria que estava passando em solo congolês.

E o Santos superou uma guerra…

Em Kinshasa, enfrentando uma típica tempestade tropical que desabou sobre a RDC, apenas treze mil pessoas viram mais uma vitória do alvinegro.

Mais dois dias e mais uma partida, agora com o tempo mais firme, quarenta mil pessoas lotaram o estádio Tata Raphael e viram a vitória dos locais por 3×2!

Euforia na África!

Uma seleção africana derrotava os deuses do futebol!

Do Congo, o alvinegro seguiu para a Nigéria, seriam os “Águias Verdes”, a seleção nigeriana o próximo adversário. Mesmo sofrendo com a violência adversária, Pelé realizou uma grande exibição e marcou dois gols no empate por 2×2.

Da Nigéria, parte para Moçambique, na época colônia portuguesa. O adversário seria o time europeu FK Áustria Viena, que foi derrotado por 2×0.

Mas o Governo da Nigéria queria mais uma apresentação em seu território, na cidade de Benin. A Nigéria atravessava uma séria crise política, com a intensificação da guerra civil na região de Biafra. Era uma tragédia tal guerra… As potencias ocidentais alimentavam os dois lados com armamentos.

Benin era uma das cidades mais importantes  da Nigéria. De grande importância espiritual para os locais, foi sede do antigo reino de Benin, destruído pelos britânicos em 1897. Na época dos britânicos o Rei acabou exilado em Calabar, no extremo leste da Nigéria.

Quando o Peixe chegou em Benin, a delegação santista foi apresentado ao descendente do antigo Rei de Benin, Akenzua II, que tinha 26 esposas, 84 filhos e 216 filhas.  O ex-jogador Lima, em depoimento, afirmava que os atletas deram-lhe apelido de “Rei do Pissirico”.

Esse é sucessor de Azenkua II, príncipe Salomon. Sagrou-se Rei em 1979.

Benin também era uma cidade importante do ponto de vista estratégico e econômico, e mesmo não fazendo parte da região de Biafra, contava com forte ação guerrilheira. A Lei marcial vigorava na região, e a violência fazia parte do cotidiano da população.

Porém ali estavam os maiores futebolistas do planeta, visitando aquela região esquecida do Mundo. A tensão era tão grande que poderia ser sentida nas pontas dos dedos…

Haveria partida de futebol?

Pelé poderia ser visto em campo?

Haveria paz?

Mas, aquela excursão era para quebrar todas as expectativas…

Naquele instante, todos queriam ver Pelé… As diferenças étnicas, política, ideológicas seriam  superadas.

Não haveria violência, não haveriam mortes.

Crianças não ficariam órfãs naqueles dias. Esposas e mães não enlutariam seus corações, pois algo mágico estava acontecendo: era o Santos FC em Benin.

O transporte foi reestabelecido e decretado feriado. O estádio lotou, e vinte e cinco mil pessoas testemunharam o momento onde a paz foi alcançada. Uma paz efêmera, mas paz!

O resultado no gramado ao final dos 90 minutos era o menos importante… O grande fato aconteceu antes da partida e fora do campo.

Uma guerra suspensa!

Mais uma… Em apenas quinze dias.

Em seguida, uma exibição em Gana. Novamente a presença de altas autoridades, desta vez era o Tenente-General Ankrah, chefe do Exército de Libertação Nacional, que governava Gana. Pelé foi aplaudido do início ao fim da partida. E o árbitro ganês, George Lamptey, anulou um gol do Santos FC.

Finalmente a despedida:  Foi no Norte da África, em Oran, Argélia.

Cinquenta mil pessoas abarrotavam o estádio. O Público ocupava até mesmo as laterais do gramado. Algo impensável nos dias de hoje, porém normal para os padrões de 1969. Pelé tem que sair correndo do gramado ao final da partida, pois os torcedores enlouquecidos invadiram o campo querendo um abraço, um aceno, ou mesmo uma peça do uniforme do Rei do Futebol.

E a excursão se encerrava. Foram 9 partidas, com 5 vitórias, 3 empates e 1 derrota. Marcou 19 gols e sofreu 11. Pelé foi o principal artilheiro com 8 gols, seguido por Toninho 5; Manuel Maria e Douglas com 2 e Lima e Edu marcaram um gol cada.

Além das inúmeras homenagens, desfiles, jantares, recepções ao longo dos 25 dias, ainda foi conquistada a Taça “Banco Standard TOTTA”, na partida contra o Áustria Viena.

Fichas técnicas:

17/01/1969 Santos FC 3×0 Seleção de Point Noire (CON)

L: Point Noire (RC)

D:  6ª feira

C: Amistoso

P: 30.000

A: Joseph Makesse

G: Pelé 29′, Manoel Maria 57′ e Douglas 89′

SFC: Gylmar (Laércio); Turcão (Oberdan), Ramos Delgado (Paulo), Marçal e Rildo; Joel Camargo (Negreiros) e Lima; Edu (Amauri), Toninho (Douglas), Pelé e Abel (Manoel Maria)
Técnico: Antoninho

PN: Mambema; Vicas, Jonquet, Ossenguet e Macosso; Feotou e Bikakondi; Yamba, Paty, Ondselet e Delide.

19/01/1969 Santos FC 3×2 R CONGO

L: Stade de la Revolución - Brazaville (RC)

D: Domingo

C: Amistoso

P: 80.000

A: Nkoukou (CON)

G: Pelé (f) 50′ e 65′ e Toninho (p) 55′ – Bikouri 42′ e Ndolou 10′

SFC: Gylmar; Turcão (Oberdan), Ramos Delgado, Marçal e Rildo; Joel Camargo (Negreiros) e Lima; Edu, Toninho (Douglas), Pelé e Abel (Manoel Maria)

Técnico: Antoninho

CON: Matsima; Ombellet, Nyangou, Nyangou e N’Doulou; Akouala e Pilamkembo; Bikouri, Fondou, Mbono, Euzécio e Itsa (Dzabana).

21/01/1969 Santos FC 2×0 RD CONGO “B”

L: Tata Raphael - Kinshasa (RDC)

D: 3ª feira

C: Amistoso

P: 13.000

A: Muamba Kambué

G: Toninho 33′ e Manoel Maria 46′

SFC: Gylmar; Turcão, Ramos Delgado, Marçal e Rildo (Oberdan); Joel Camargo e Lima; Edu, Toninho (Douglas), Pelé e Abel (Manoel Maria)
Técnico: Antoninho

Uniforme: Camisas brancas

RDC: Matumona; Luyeye, Kasangu, Tshimanga e Mange; Makelele e Tshulumba; Mayanga, Kembo, Kashali (Docta) e Mokili.

23/01/1969 Santos FC 2×3 RD CONGO “A” - 2429

L: Tata Raphael - Kinshasa (RDC)

D: 5ª feira

C: Amistoso

P: 40.000

A: Mayombe

G: Pelé 25′ e 44′ – Nyembo 28′ e Kalala 50′ e 60′

SFC: Gylmar; Turcão (Oberdan), Ramos Delgado, Marçal e Rildo; Joel Camargo (Negreiros) e Lima; Manoel Maria, Toninho (Douglas), Pelé e Edu.
Técnico: Antoninho

Uniforme: Camisas brancas

RDC: Matumona (Kalambay); Luyeye, Ngoie, Tshimanga e Mange; Makelele e Kibonge; Nyembo (Mokili), Kembo, Kalala e Mayanga (Adelar).

26/01/1969 Santos FC 2×2 NIGÉRIA

L: Estádio Principal de Lagos (Taslim Balogun Stadium) - Lagos (NIG)

D: Domingo

C: Amistoso

A: P.L. Gomah

G: Pelé 25′ e 42′ – Osede 12′ e Alli 88′

SFC: Gylmar; Turcão, Ramos Delgado, Marçal e Rildo; Joel Camargo (Negreiros) e Lima; Manoel Maria, Toninho (Douglas), Pelé (Amauri) e Edu (Abel)

Técnico: Antoninho

NIG: Rigogo (Peter); Igne, Mazeli, Andrews e Opens; Olumodeji e Olayombo; Osede, Alli, Lawal e Inge (Mohamed).

Técnico: Peter ‘Eto’ Amaechina

01/02/1969 Santos FC 2×0 FK Áustria Viena

L: Estádio Oliveira Salazar - Lourenço Marques – Moçambique (MOÇ)

D: Sábado

C: Amistoso (Taça Banco Standard TOTTA)

P: 20.000

A: Américo Telles

G: Lima (f) 30′ e Toninho 18′

SFC: Laércio; Turcão (Oberdan), Ramos Delgado (Paulo),  Joel Camargo (Marçal) e Rildo; Lima e Negreiros (Amauri); Manoel Maria, Toninho (Douglas), Pelé e Edu
Técnico: Antoninho

Uniforme: Camisas brancas

FKA: Schneider; Heinz, Johann Frank, Karl e Geyer; Dienberger e Parits (Knell); Kuntz, Helmut, Ernst e Reidl (Poindl).

Técnico: Ernst Ocwirk

04/02/1969 Santos FC 2×1 Seleção do Meio Oeste (NIG)

L: Samuel Ogbemudia Stadium (na época Ogde Stadium) - Benin – Nigéria (NIG)

D: 3ª feira

C: Amistoso

P: 25.000

A: A. Anisha

G: Edu e Toninho (ambos no 1º tempo) – Okerê (1º tempo)

SFC: Gylmar (Laércio); Turcão, Ramos Delgado, Joel Camargo e Rildo (Oberdan); Lima e Negreiros (Marçal); Manoel Maria, Toninho (Douglas), Pelé (Amauri) e Edu (Abel) .
Técnico: Antoninho

Uniforme: Camisas brancas

MO: Omede; Egbeama, Okerê, Oaigie e Izilein; Okafor e Okore; Atuma, Efosa, Iyaserê e Tobor.

06/02/1969 Santos FC 2×2 Heart of Oak SC (GAN)

L: Ohene Djan Stadium - Acra – Gana (GAN)

D: 5ª feira

C: Amistoso

P: 25.000

A: George Lamptey (GAN)

G: Pelé 33′ e Douglas 65′ – Abeko 27′ e Amusa 53′

SFC: Laércio; Turcão, Ramos Delgado, Joel Camargo e Rildo; Lima (Marçal) e Negreiros (Amauri); Manoel Maria, Toninho (Douglas), Pelé e Edu.

Técnico: Antoninho

Uniforme: Camisas brancas

HOSC: Addoquaye; Joe Adjei, Joe Dakota, Esirey (Michel) e Amarteifio; Welbeck e Abeko; Robert Foly, Joe Garthey, Amusa e George Alhassan.

09/02/1969 Santos FC 1×1 ARGÉLIA

L: Stade Ahamed Zabana - Oran – Argélia (AGL)

D: Domingo

C: Amistoso

P: 50.000

A: Kaide Slimane

G: Toninho 42′ – Freha 76′

SFC: Laércio; Turcão (Oberdan), Paulo, Joel Camargo e Rildo; Lima e Negreiros; Manoel Maria, Toninho (Douglas), Pelé e Edu.

Técnico: Antoninho

Uniforme: Camisas brancas

AGL: Abrouk; Kniart (Thamar), Douruba, Hadepy e Atuh; Sheb (Freha) e Seridi; Beroudji, Selni, Achour e Izelein.

Técnico:  Saïd Amara

Para encerrar, veja o vídeo editado por Wesley Miranda:

http://www.youtube.com/watch?v=BvbCUB0sym8

O fim de uma geração e o começo de outra

Santistas de todo Mundo, uni-vos!

Depois da conquista do Penta-Campeonato Brasileiro, o Santos era favorito para qualquer competição que por ventura disputasse.

Rio/São Paulo, Taça Brasil, Paulista e Libertadores seriam as pedreiras que o alvinegro teria pela frente, além disso, 1966 era ano de Copa do Mundo.

O tri campeonato era uma obsessão da CBD, tanto que João Havelange convenceu a direção do Santos a não disputar a Libertadores… assim os atletas santistas poderiam participar dos 3 meses de treinamentos para a Copa da Inglaterra. Período em que a CBD convocou 44 atletas para selecionar os 22 para a Copa…

O ano começa com o SFC em turnê mundial. Primeira parada: África, Costa do Marfim

Pela primeira vez, o Santos atua na África negra.

Pelé é recebido como um deus negro… e para agradecer toda a reverência, o Santos goleia por 7×1 o Stade Club Abdjian , com direito a gol olímpico de Pepe e dois gols de Pelé.

A única partida em campos africanos é um grande sucesso e o alvinegro retornaria nos anos seguintes.

Em seguida o destino da turnê é um giro pela América do Sul e Central:

2×0 Combinado CA Tucumán/ CA San Martin (Argentina)

1×2 Alianza FC (El Salvador)

1×2 Botafogo FR  – Copa Circuito de Jornalistas (Venezuela)

0x3 Botafogo FR – Copa Circuito de Jornalistas (Venezuela)

2×2 C Universitario D (Peru)

4×1 C Alianza L  (Peru)

1×1 FBC Deportivo Melguar (Peru)

6×1 CFP Universidad de Chile

1×0 CA Rosario Central (Argentina)

1×1 CA Sarmiento (Argentina)

2×2 CSD Colo-Colo (Chile)

Retorna ao Brasil e fica sem Pelé, pois o Rei do futebol se afasta dos campos de futebol, para casar-se pela primeira vez.

Assim , sem o Rei, e com diversos atletas acima dos 30 anos (Gilmar, Zito, Mauro, Pepe, Orlando e o retorno de Del Vecchio) o Santos começa sua campanha no Torneio Roberto Gomes Pedrosa (Torneio Rio/Sâo Paulo), “é o momento de preparar a renovação do elenco”, pensa Lula.

26/02 – 2×3 São Paulo (Pacaembu)

03/03 – 2×1 A Portuguesa D (Pacaembu) – Uma partida comum, exceto por um detalhe: a primeira partida do ponteiro esquerdo EDU. Com apenas 16 anos, Edu era mais um menino que Lula lançava no time principal do SFC.

06/03 – 1×1 CR Flamengo (Maracanã)

10/03 – 0x1 Fluminense FC (Parque Antártica)

13/03 – 1×1 Botafogo FR (Maracanã)

17/03  – 4×0 Bangu AC (Pacaembu). Um marco! Edu arrebentou com a partida… cansou de entortar Fidélis (que seria o lateral titular da Seleção) e ainda marcou dois gols

Foto de Edu em 1971 (Revista Placar). Reparem as 3 estrelas acima do escudo (mas, isso já é outra história…).

Edu foi o maior ídolo santista (tirando Pelé, é claro) no período 67/76. Disputou as copas de 66, 70 e 74. Teve o grande azar de ter como técnico na Seleção Brasileira, Zagallo (1970 e 1974). Edu era técnico, driblador, cobrava faltas com violência e perfeição, um ponta autêntico. O oposto de Zagallo, que  gostava de pontas que compunham o meio de campo, que cercavam e marcavam…

Com Edu não, quem tinha que se preocupar em marcar era o lateral, não ele..

Com o surgimento de Edu, o time embala:

20/03 – 5×2 CR Vasco da Gama (Pacaembu)

23/03 – 3×2 SE Palmeiras

Até chega a última rodada… de azarão, o Santos passa a ter condições de conquistar mais uma Taça. O adversário seria o Corinthians. O alvinegro paulistanno tinha virado “timão”, pois para tentar ganhar alguma coisa e quebrar o tabu de quase 10 anos sem vencer o SFC, contratara de uma só vez o veterano e genial ponteiro Garrincha (mas, já com inúmeros problemas físicos), o zagueiro Ditão e o volante Nair (ambos da Portuguesa). Seus torcedores imaginavam que juntos com Jair Marinho, Dino Sani, Flávio e Rivellino o SCCP poderia superar o alvinegro de Vila Belmiro.  A situação era a seguinte: quem vencesse torceria contra o Vasco (que enfrentaria o Botafogo), para assegurar o título. Nas contas da imprensa paulistana o Corinthians tinha grandes chances de sagrar-se campeão…

Para a imprensa paulistana, naquela tarde, Garrincha quebraria o tabu, ainda mais sem a presença de Pelé em campo.

Pênalti de Zito em Garrincha. Laércio irá defender a cobrança.

Empurrado pela torcida, o Corinthians parte para cima… Garrincha esta inspirado e dá um trabalho enorme para Zé Carlos e Zito….

Mesmo assim, ganhar do SFC não era nada fácil… torcedores santistas ou neutros (sim, naquela época era comum ter torcedores nos Estádios que iam ver o espetáculo, sem torcer para nenhum dos dois times) tinham isso quase como certeza… Meus irmãos, que viram a partida no Pacaembu, contam que um senhor de terno, logo atrás deles gritava a pleno pulmões: “Se o Santos perder, eu tiro a roupa!!!”

E muitos já imaginavam o espetáculo deprimente que aquele senhor se dispunha a fazer, quando Coutinho foi expulso ainda no 1º tempo… logo em seguida, é a vez de Mengálvio ir embora mais cedo… o Santos com  9 e o sujeito berrava…”Se o SFC perder eu tiro a roupa”… a situação já estava ficando inconveniente, pois o SFC foi todo para a defesa, deixando Toninho Guerreiro isolado no ataque…  Garrincha esta liso feito sabão, sendo parado apenas na pancada… e foi numa dessas que Garrincha cavou um pênalti, aos 44 minutos. Meu pai já estava querendo tirar meus irmão daquele lugar, pois o alucinado senhor prometia… (bom, das duas uma… ou o exibicionista ficaria isolado, ou ia tomar porrada até cansar…)

Flávio prepara a cobrança, chuta  e ………. Laércio defende!!!!

Um alívio no time santista e nas arquibancadas do Pacaembu… pois, após esse penalti perdido todos sabiam que o Corinthians não marcaria mais… logo, o Santos não perderia. Assim, aquele senhor tresloucado continuou berrando (e dando risada) “Se o Santos perder, eu tiro a roupa”.

No 2º tempo, ainda teve um gol anulado do Corinthians e um outro incrivelmente perdido pelo SFC… final 0x0.

No Rio de Janeiro, o Botafogo vencia o Vasco por 3×0 e provocava um quádruplo empate na 1ª posição. Como não haveriam datas disponíveis para o torneio de desempate, os quatro alvinegros foram considerados campeões!

O Santos ainda realiza mais 3 amistosos antes de começar os treinamentos da seleção…

Em abril, os 44 atletas são chamados… entre eles são diversos os santistas:

Gilmar, Orlando, Carlos Alberto Torres, Lima, Zito, Pelé e….. Edu.

Sim, meus amigos, com UM MÊS de atuação profissional, Edu já fazia parte do seleto grupo de atletas que poderiam representar a Seleção Nacional.

Um sonho inimaginável para qualquer garoto aos 16 anos… Jogar no SFC (no lugar de Pepe), passar para Seleção e ir para uma Copa do Mundo… ainda mais uma Copa do Mundo na Inglaterra… e para jogar em Liverpool!

Liverpool, terra dos BEATLES!!!!!

E Edu conquistou tudo isso em UM MÊS!

Bom, enquanto os 44 atletas se matavam para saber quem iria para a Copa, o Santos ia realizando amistosos, afinal tinha um Parque Balneário para pagar.

Encara um triangular no Mineirão (Santos, Atlético Mineiro e Seleção do Uruguai), e o resultado não foi bom:

0x3 C Atlético Mineiro e 1×3 Uruguai

E o time de saltimbancos santistas ainda atua em Santa Catarina, Mato Grosso e interior do Estado… até acabar a Copa do Mundo e começar o Campeonato Paulista.

Imagem (hecurvature.com)

Copa do Mundo que foi uma tragédia…

Com a bagunça dos 44 convocados, o período de treinamento foi confuso, acreditou-se que o veteranos poderiam vencer (como em 62). Mas o futebol tinha mudado, o mundo havia mudado. Assim, Gilmar, Orlando, Djalma Santos, Belline, Zito, Garrincha, Altair não puderam acompanhar o ritmo  que as seleções européias introduziam no gramado… Se isso não fosse o suficiente, Pelé foi caçado em campo como uma presa a ser abatida…

O espetáculo começa a dar espaço para a competição, a beleza saia de campo e entrava o resultado a qualquer custo…

Imagem (albertohelder.blogspot.com)

Em agosto, começava o Campeonato Paulista.

O início santista foi razoável: 5×1 Noroeste, 3×3 Portuguesa Santista, 5×2 América e 1×1 Juventus.

Porém, o que todos ainda tinham em mente era a imagem de Pelé saindo do gramado de Liverpool abatido e derrotado por Eusébio e seus companheiros.

Imagem(copadomundo.uol.com.br)

Assim, quando empresários norte-americanos organizaram a New York Champions Cup e convidaram o Benfica (base da deleção de Portugal), o Santos (base da seleção Brasileira)  e o AEK (Campeão Grego), o Mundo parou novamente para ver como reagiriam os craques brasileiros…

E nessas condições, o Santos é outro Santos…

E o alvinegro passou por cima do Benfica como bem quis… 4×0!!!!!

Contra o AEK , foi apenas 1×0, e a New York Cup foi para a Vila Belmiro.

De Nova Iorque,  o time segue para o México:

1×1 D Toluca FC

2×2 CF Atlante

E antes de regressar ao Brasil, mais uma partida em Nova Iorque. O adversário agora, é o Internazionale (Itália), e em disputa o troféu “Il Progresso” .Final, Santos 4×1. prestígio intacto e mais um mercado aberto: o dos EUA!

Dois dias depois já esta em Campinas, e perde: 0x3 Guarani.

Vence a Prudentina (3×1),mas uma série de resultados ruins fazem com que o tri-campeonato santista fique distante…na derrota por 2×0 para a Portuguesa de Desportos, Lula tenta agredir o bandeirinha e pega um gancho da FPF, sendo substituido por Antoninho no comando técnico nos dias de jogos.

No clássico contra o Corinthians, um grande atrativo:  Garrincha faria a sua 1ª partida após a Copa do Mundo. No entanto,  o nome do jogo foi Coutinho… em 15 minutos Coutinho marcou 3 gols e acabou com o Corinthians. No jogo seguinte, Coutinho marcou ourtos 4 gols na vitória por 7×5 contra o Comercial!!!!!

Em novembro, a Taça Brasil, e o adversário seria o C Naútico C, grande campeão do Nordeste.

No Recife, 2×0 para o alvinegro.

Mas, no Pacaembu…

Os campeões pernambucanos surpreenderam e venceram por impressionantes 5×3!

Dois dias depois a 3ª partida… 4×1 para o Santos, numa grande exibição de Toninho Guerreiro.

Santos na final… novamente. Era a oportunidade de ficar em definitivo com a 2ª Taça Brasil.

A final seria contra o Cruzeiro de Minas Gerais…

O Cruzeiro era um time jovem, que contava com craques indiscutíveis como Tostão , Dirceu Lopes, Wilson Piazza, Zé Carlos e  Natal.

Minas estava em ebulição… o Mineirão tinha sido inaugurado em 1965 e seu futebol tinha melhorado a olhos vistos.

Mesmo assim, o mais otimista dos cruzeirenses nunca imaginariam o que aconteceria no Mineirão em 30 de novembro…

Antes dessa partida, o Santos voltava para o Campeonato Paulista e parecia que tinha embalado para o tri: pois duas vitórias (2×0 Palmeiras e 2×1 Guarani) colocavam o time no páreo para o título.

Chega 30 de novembro…

Mineirão lotado (imagem: a2bs.sites.uol.com.br)…

Recorde de renda em todo o Brasil…

Lula manda a campo o que o Santos tinha de melhor, de mais experiente:

Gilmar; Carlos Alberto, Mauro, Oberdã e Zé Carlos; Zito e Lima; Dorval, Toninho, Pelé e Pepe

Um minuto de partida, Cruzeiro, 1×0

Aos 5′, Natal…2×0

Dirceu Lopes, 3×0

Outra vez Dirceu Lopes…4×0…

Tostão, de pênalti, 5×0

O Santos estava conhecendo um 3º rival a sua altura no Brasil (os outros eram o Botafogo e o Palmeiras)…

Fim do 1º tempo…

O time do SFC dava “graças a Deus” por ter terminado aquele bombardeio.

Retornam os atletas… e o alvinegro parte para cima..

Em 10 minutos, Toninho Guerreiro já diminui para 2×5… a torcida mineira gela na arquibancadas… mas Tostão e Dirceu Lopes não…

Aos 72′, Dirceu Lopes marca mais um e liquida qualquer possibilidade de reaçao santista…

No Pacaembu, as coisas serão diferentes… esse era o pensamento santista.

E parecia que seria mesmo, pois logo no 1º tempo o Santos abre 2×0…

No início do 2º tempo, Cláudio  defende pênalti cobrado por Tostão…

O Cruzeiro com mais fôlego, mais jovem, não desiste… toca a bola a acua o experiente time santista… e Tostão, Dirceu Lopes e Natal decretam o fim de uma geração.

Cruzeiro 3×2 Santos

O poder jovem celebrado pelas músicas de 1966 chegara ao futebol…

Novos craques, novos nomes…

A geração de ouro santista concebida no final dos anos 50 estava sendo superada.

O Brasil descobria o Cruzeiro… o Brasil descobria Minas Gerais… o modelo da Taça Brasil iria começar a ficar obsoleto… todos (e não apenas o campeão carioca ou paulista) queriam enfrentar o time que derrubara o SFC do pedestal do futebol brasileiro…

Assim, derrotado, abatido o Santos tenta recuparar o ânimo com o Campeonato Paulista… precisa vencer seus jogos, um empate já colocaria tudo a perder… nos anos anteriores issonão seria problema… mas, naquele final de 1966 as incertezas compartilhavam os vestiários santistas.

E no dia 12 de dezembro, a pá de cal nas  pretenções do SFC… nova derrota, para a Portuguesa (1×0) liquidam o sonho do tri-campeonato.

Campanha do Campeonato Paulista:

EC Noroeste – 5×1 (VB); 4×1 (Bauru)

AA Portuguesa – 3×3 (VB); 3×0 (VB)

America FC – 5×2 (SJRP); 2×1 (VB)

CA Juventus  – 1×1 (VB); 3×0 (Pacaembu)

Guarani FC – 0x3 (Brinco de Ouro); 2×1 (VB)

A Prudentina EA –  3×1 (PP); 3×0 (VB)

A Portuguesa D – 0x2 (VB); 0x1 (Pacaembu)

Comercial FC – 1×3 (Francisco Palma Travassos); 7×5 (VB)

SE Palmeiras – 2×2 (Pacembu); 2×0 (VB)

Botafogo FC – 1×2 (Luis Pereira); 3×1 (VB)

São Paulo FC – 1×0 (VB); 1×2 (Morumbi)

EC São Bento  – 3×3 (Humberto Realli); 2×2 (VB)

CA Bragantino  – 6×2 (VB); 3×2 (VB)

SC Corinthians P – 3×0 (Pacaembu); 1×1 (Pacaembu)

Lula esta sendo ameaçado no emprego… Mauro, Zito, Pepe, Orlando já não possuiam a mesma vitalidade…Coutinho estava sempre com problemas físicos… parecia que o reinado esta por um fio…

A esperança estava nos jovens…

Young power

Força jovem,

A esperança estava em Edu, Clodoaldo, Joel Camargo, Oberdã e Cláudio… além de Pelé é claro

1967 estava “virando a esquina”… o final dos anos 60 prometia muitas mudanças, alegrias, contestações e quebra de paradigmas.

Pelé no esporte espetacular

Amigos,

Pelé foi sem dúvida o maior jogador de futebol de todos os tempos. Tive o privilégio de ver Pelé em campo, ao vivo. Estava em final de carreira, é verdade, mas pude testemunhar algumas genialidades do REI.

Neste domingo, o “esporte espetacular”, apresentou uma bela matéria sobre Ele: Pelé parando guerras.

Conhecia a história passada na África, mais precisamente na Nigéria, em 1969, durante a Guerra da Biafra. As outras duas apresentadas no programa, não conhecia.

A matéria é muito boa… enquanto se fala de futebol. No final, Pelé dá uma declaração política (aí, ele esta mais para Zoca do que para Pelé)… mas a reverência à sua majestade é no plano do futebol. E no futebol, Pelé merece as mais diversas reportagens.

Leia a matéria : http://globoesporte.globo.com/programas/esporte-espetacular/noticia/2010/11/comandante-da-paz-historias-em-detalhes-que-fazem-de-pele-um-idolo.html