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Uma aventura na África – 45 anos da excursão mais incrível do SFC

Guerra de Biafra (1969) - Região Oriental da Nigéria

Janeiro de 1969.

Parecia que o Brasil e o Mundo estavam de cabeça para baixo.

Aqui, o AI-5 ceifava cabeças, Vandré embalava multidões e Roberto Carlos vivia em ritmo de aventura. Lá fora, os jovens estudantes continuavam tentando a mudar o mundo, onde quer que estivessem,  fosse em Washington ou Saigon, Paris ou Praga, Caracas ou Roma, Londres  ou San Francisco.  Algumas vezes na vanguarda dos movimentos sociais, outras vezes apenas resistindo à repressão ou a violência do Estado.

No futebol, um time sulamericano continuava reinando em seu País e preparava-se para ser o melhor do Mundo novamente. Depois de um ano perfeito, quando conquistou todas as competições que participou, o Santos FC preparava-se para um giro pelos campos africanos.

Não seria a primeira vez, visto que o alvinegro já visitara o continente negro em 1960, 1966 e 1967.

Com um roteiro prevendo jogos no Congo, Nigéria, Argélia e Moçambique a viagem se estenderia por 25 dias, iniciando em 17 de janeiro e terminando em  9 de fevereiro.

Contando com uma delegação de 18 atletas (Gylmar, Laércio, Turcão, Ramos Delgado, Oberdã, Marçal, Rildo, Joel Camargo, Negreiros, Lima, Edu, Amauri, Toninho Guerreiro, Douglas, Pelé, Abel e Manoel Maria) o SFC parte para fazer história na África.

A primeira parada foi na cidade portuária de Point Noire, na República do Congo. O adversário seria uma seleção local. O estádio lotado viu todos os 18 craques santistas em campo desfilarem a categoria que possuíam e marcarem 3 gols. Apesar da derrota por 3×0, os torcedores locais saíram satisfeitos, pois diziam ao final da partida: “Perder para o Santos não é perder!”

Dois dias depois uma esticada até a capital, Brazaville, para enfrentar a seleção nacional do Congo, no Estádio da Revolução. Oitenta mil pessoas lotavam o estádio. Nas tribunas a presença do Presidente da República do Congo, Ngouabi. O árbitro congolês (Nkoukou) permitia a violência dos jogadores locais contra os santistas e ao final do 1º tempo, revoltado, Pelé aproxima-se de Nkoukou e exclama: “Le macth est fini!”. O Presidente do Congo, vendo os fatos, manda um bilhete para o árbitro: “O Santos está aqui para dar um espetáculo e eu quero assistir esse espetáculo. Você tem que apitar direito o segundo tempo. Se isso não acontecer, você será preso”.

Esse, literalmente, mandava prender e mandava soltar.  (Marien Ngouabi)
Esse, literalmente, mandava prender e mandava soltar. (Marien Ngouabi)

Recado dado, recado recebido. Logo no início da etapa final, o árbitro marca um pênalti, que Toninho converte. Em seguida, Pelé marca de falta e acaba a violência em campo. No final, vitória por 3×2.

Após atuar em Brazaville, uma incrível travessia de barco pra Kinshasa na República Democrática do Congo.

Brazaville e Kinshasa são separadas pelo Rio Congo. Uma capital de frente para outra…

Em 1969, os dois países estavam rompidos diplomaticamente. A República do Congo (RC) tinha um Governo de orientações marxistas, enquanto que a República Democrática do Congo (RDC) era alinhado com os governos pró-EUA, algo no estilo Coréia do Norte e Coréia do Sul. Desta forma não havia ligação fluvial entre as capitais, sendo proibido que qualquer pessoa atravessasse o Rio Congo em qualquer direção.

Mas, como Pelé e seus súditos atravessariam a fronteira?

Aqui surgia a primeira grande aventura… Num trabalho intenso de bastidores políticos, surge uma trégua na tensão diplomática. O exército da RDC manda uma barca para buscar os craques santistas, e num gesto de boa vontade o Governo da RC permite que a mesma  atracasse em seu território. Em outro momento tal situação significaria uma declaração de guerra, porém era o Santos, era Pelé, eram os deuses negros do futebol que estavam no cais de Brazaville. Desta forma, o futebol provoca seu primeiro milagre na África: Tiros ou bombas não foram ouvidos e nem foram lançadas… A paz estava sendo construída. Era a missão de paz  e alegria que estava passando em solo congolês.

E o Santos superou uma guerra…

Em Kinshasa, enfrentando uma típica tempestade tropical que desabou sobre a RDC, apenas treze mil pessoas viram mais uma vitória do alvinegro.

Mais dois dias e mais uma partida, agora com o tempo mais firme, quarenta mil pessoas lotaram o estádio Tata Raphael e viram a vitória dos locais por 3×2!

Euforia na África!

Uma seleção africana derrotava os deuses do futebol!

Do Congo, o alvinegro seguiu para a Nigéria, seriam os “Águias Verdes”, a seleção nigeriana o próximo adversário. Mesmo sofrendo com a violência adversária, Pelé realizou uma grande exibição e marcou dois gols no empate por 2×2.

Da Nigéria, parte para Moçambique, na época colônia portuguesa. O adversário seria o time europeu FK Áustria Viena, que foi derrotado por 2×0.

Mas o Governo da Nigéria queria mais uma apresentação em seu território, na cidade de Benin. A Nigéria atravessava uma séria crise política, com a intensificação da guerra civil na região de Biafra. Era uma tragédia tal guerra… As potencias ocidentais alimentavam os dois lados com armamentos.

Benin era uma das cidades mais importantes  da Nigéria. De grande importância espiritual para os locais, foi sede do antigo reino de Benin, destruído pelos britânicos em 1897. Na época dos britânicos o Rei acabou exilado em Calabar, no extremo leste da Nigéria.

Quando o Peixe chegou em Benin, a delegação santista foi apresentado ao descendente do antigo Rei de Benin, Akenzua II, que tinha 26 esposas, 84 filhos e 216 filhas.  O ex-jogador Lima, em depoimento, afirmava que os atletas deram-lhe apelido de “Rei do Pissirico”.

Esse é sucessor de Azenkua II, príncipe Salomon. Sagrou-se Rei em 1979.

Benin também era uma cidade importante do ponto de vista estratégico e econômico, e mesmo não fazendo parte da região de Biafra, contava com forte ação guerrilheira. A Lei marcial vigorava na região, e a violência fazia parte do cotidiano da população.

Porém ali estavam os maiores futebolistas do planeta, visitando aquela região esquecida do Mundo. A tensão era tão grande que poderia ser sentida nas pontas dos dedos…

Haveria partida de futebol?

Pelé poderia ser visto em campo?

Haveria paz?

Mas, aquela excursão era para quebrar todas as expectativas…

Naquele instante, todos queriam ver Pelé… As diferenças étnicas, política, ideológicas seriam  superadas.

Não haveria violência, não haveriam mortes.

Crianças não ficariam órfãs naqueles dias. Esposas e mães não enlutariam seus corações, pois algo mágico estava acontecendo: era o Santos FC em Benin.

O transporte foi reestabelecido e decretado feriado. O estádio lotou, e vinte e cinco mil pessoas testemunharam o momento onde a paz foi alcançada. Uma paz efêmera, mas paz!

O resultado no gramado ao final dos 90 minutos era o menos importante… O grande fato aconteceu antes da partida e fora do campo.

Uma guerra suspensa!

Mais uma… Em apenas quinze dias.

Em seguida, uma exibição em Gana. Novamente a presença de altas autoridades, desta vez era o Tenente-General Ankrah, chefe do Exército de Libertação Nacional, que governava Gana. Pelé foi aplaudido do início ao fim da partida. E o árbitro ganês, George Lamptey, anulou um gol do Santos FC.

Finalmente a despedida:  Foi no Norte da África, em Oran, Argélia.

Cinquenta mil pessoas abarrotavam o estádio. O Público ocupava até mesmo as laterais do gramado. Algo impensável nos dias de hoje, porém normal para os padrões de 1969. Pelé tem que sair correndo do gramado ao final da partida, pois os torcedores enlouquecidos invadiram o campo querendo um abraço, um aceno, ou mesmo uma peça do uniforme do Rei do Futebol.

E a excursão se encerrava. Foram 9 partidas, com 5 vitórias, 3 empates e 1 derrota. Marcou 19 gols e sofreu 11. Pelé foi o principal artilheiro com 8 gols, seguido por Toninho 5; Manuel Maria e Douglas com 2 e Lima e Edu marcaram um gol cada.

Além das inúmeras homenagens, desfiles, jantares, recepções ao longo dos 25 dias, ainda foi conquistada a Taça “Banco Standard TOTTA”, na partida contra o Áustria Viena.

Fichas técnicas:

17/01/1969 Santos FC 3×0 Seleção de Point Noire (CON)

L: Point Noire (RC)

D:  6ª feira

C: Amistoso

P: 30.000

A: Joseph Makesse

G: Pelé 29′, Manoel Maria 57′ e Douglas 89′

SFC: Gylmar (Laércio); Turcão (Oberdan), Ramos Delgado (Paulo), Marçal e Rildo; Joel Camargo (Negreiros) e Lima; Edu (Amauri), Toninho (Douglas), Pelé e Abel (Manoel Maria)
Técnico: Antoninho

PN: Mambema; Vicas, Jonquet, Ossenguet e Macosso; Feotou e Bikakondi; Yamba, Paty, Ondselet e Delide.

19/01/1969 Santos FC 3×2 R CONGO

L: Stade de la Revolución - Brazaville (RC)

D: Domingo

C: Amistoso

P: 80.000

A: Nkoukou (CON)

G: Pelé (f) 50′ e 65′ e Toninho (p) 55′ – Bikouri 42′ e Ndolou 10′

SFC: Gylmar; Turcão (Oberdan), Ramos Delgado, Marçal e Rildo; Joel Camargo (Negreiros) e Lima; Edu, Toninho (Douglas), Pelé e Abel (Manoel Maria)

Técnico: Antoninho

CON: Matsima; Ombellet, Nyangou, Nyangou e N’Doulou; Akouala e Pilamkembo; Bikouri, Fondou, Mbono, Euzécio e Itsa (Dzabana).

21/01/1969 Santos FC 2×0 RD CONGO “B”

L: Tata Raphael - Kinshasa (RDC)

D: 3ª feira

C: Amistoso

P: 13.000

A: Muamba Kambué

G: Toninho 33′ e Manoel Maria 46′

SFC: Gylmar; Turcão, Ramos Delgado, Marçal e Rildo (Oberdan); Joel Camargo e Lima; Edu, Toninho (Douglas), Pelé e Abel (Manoel Maria)
Técnico: Antoninho

Uniforme: Camisas brancas

RDC: Matumona; Luyeye, Kasangu, Tshimanga e Mange; Makelele e Tshulumba; Mayanga, Kembo, Kashali (Docta) e Mokili.

23/01/1969 Santos FC 2×3 RD CONGO “A” - 2429

L: Tata Raphael - Kinshasa (RDC)

D: 5ª feira

C: Amistoso

P: 40.000

A: Mayombe

G: Pelé 25′ e 44′ – Nyembo 28′ e Kalala 50′ e 60′

SFC: Gylmar; Turcão (Oberdan), Ramos Delgado, Marçal e Rildo; Joel Camargo (Negreiros) e Lima; Manoel Maria, Toninho (Douglas), Pelé e Edu.
Técnico: Antoninho

Uniforme: Camisas brancas

RDC: Matumona (Kalambay); Luyeye, Ngoie, Tshimanga e Mange; Makelele e Kibonge; Nyembo (Mokili), Kembo, Kalala e Mayanga (Adelar).

26/01/1969 Santos FC 2×2 NIGÉRIA

L: Estádio Principal de Lagos (Taslim Balogun Stadium) - Lagos (NIG)

D: Domingo

C: Amistoso

A: P.L. Gomah

G: Pelé 25′ e 42′ – Osede 12′ e Alli 88′

SFC: Gylmar; Turcão, Ramos Delgado, Marçal e Rildo; Joel Camargo (Negreiros) e Lima; Manoel Maria, Toninho (Douglas), Pelé (Amauri) e Edu (Abel)

Técnico: Antoninho

NIG: Rigogo (Peter); Igne, Mazeli, Andrews e Opens; Olumodeji e Olayombo; Osede, Alli, Lawal e Inge (Mohamed).

Técnico: Peter ‘Eto’ Amaechina

01/02/1969 Santos FC 2×0 FK Áustria Viena

L: Estádio Oliveira Salazar - Lourenço Marques – Moçambique (MOÇ)

D: Sábado

C: Amistoso (Taça Banco Standard TOTTA)

P: 20.000

A: Américo Telles

G: Lima (f) 30′ e Toninho 18′

SFC: Laércio; Turcão (Oberdan), Ramos Delgado (Paulo),  Joel Camargo (Marçal) e Rildo; Lima e Negreiros (Amauri); Manoel Maria, Toninho (Douglas), Pelé e Edu
Técnico: Antoninho

Uniforme: Camisas brancas

FKA: Schneider; Heinz, Johann Frank, Karl e Geyer; Dienberger e Parits (Knell); Kuntz, Helmut, Ernst e Reidl (Poindl).

Técnico: Ernst Ocwirk

04/02/1969 Santos FC 2×1 Seleção do Meio Oeste (NIG)

L: Samuel Ogbemudia Stadium (na época Ogde Stadium) - Benin – Nigéria (NIG)

D: 3ª feira

C: Amistoso

P: 25.000

A: A. Anisha

G: Edu e Toninho (ambos no 1º tempo) – Okerê (1º tempo)

SFC: Gylmar (Laércio); Turcão, Ramos Delgado, Joel Camargo e Rildo (Oberdan); Lima e Negreiros (Marçal); Manoel Maria, Toninho (Douglas), Pelé (Amauri) e Edu (Abel) .
Técnico: Antoninho

Uniforme: Camisas brancas

MO: Omede; Egbeama, Okerê, Oaigie e Izilein; Okafor e Okore; Atuma, Efosa, Iyaserê e Tobor.

06/02/1969 Santos FC 2×2 Heart of Oak SC (GAN)

L: Ohene Djan Stadium - Acra – Gana (GAN)

D: 5ª feira

C: Amistoso

P: 25.000

A: George Lamptey (GAN)

G: Pelé 33′ e Douglas 65′ – Abeko 27′ e Amusa 53′

SFC: Laércio; Turcão, Ramos Delgado, Joel Camargo e Rildo; Lima (Marçal) e Negreiros (Amauri); Manoel Maria, Toninho (Douglas), Pelé e Edu.

Técnico: Antoninho

Uniforme: Camisas brancas

HOSC: Addoquaye; Joe Adjei, Joe Dakota, Esirey (Michel) e Amarteifio; Welbeck e Abeko; Robert Foly, Joe Garthey, Amusa e George Alhassan.

09/02/1969 Santos FC 1×1 ARGÉLIA

L: Stade Ahamed Zabana - Oran – Argélia (AGL)

D: Domingo

C: Amistoso

P: 50.000

A: Kaide Slimane

G: Toninho 42′ – Freha 76′

SFC: Laércio; Turcão (Oberdan), Paulo, Joel Camargo e Rildo; Lima e Negreiros; Manoel Maria, Toninho (Douglas), Pelé e Edu.

Técnico: Antoninho

Uniforme: Camisas brancas

AGL: Abrouk; Kniart (Thamar), Douruba, Hadepy e Atuh; Sheb (Freha) e Seridi; Beroudji, Selni, Achour e Izelein.

Técnico:  Saïd Amara

Para encerrar, veja o vídeo editado por Wesley Miranda:

http://www.youtube.com/watch?v=BvbCUB0sym8