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Santos FC: Luta de classes no futebol paulista

Santistas de todo Mundo, uni-vos!

1913: Os Sindicatos  Operários colocam o movimento contra a carestia nas ruas. No futebol, a elite perde espaço para os clubes mais democráticos que aceitavam negros, pardos e pobres como o Santos FC e os times ligados às colônias com o Palestra e o Corinthians.

Em 1913 explode a 1ª cisão no futebol de São Paulo.

O motivo? Uma mistura  de ganância e desprezo às classes populares.

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A década de ouro

Santistas de todo o mundo, uni-vos!

Meu amigo e xará, o Guilherme Guarche lança nesta sexta-feira, 17/09, às 17:00, mais um livro sobre o Santos FC.

Trata-se de “A década de ouro”… um relato das façanhas do alvinegro de Vila Belmiro nos anos 60.

Imperdível para todo santista e para aqueles que gostam de futebol.

Fica o convite para o lançamento de mais um aguardado livro santista:

Nesta sexta-feira, 17:00, na loja do Umbro, na Vila Belmiro (local mais apropriado, não haveria).

Quem quiser pedir o livro pelo correio, entre em contato com o autor: ggguarche@bol.com.br

Santos: sua história e seus casos incomuns

Santistas de todo Mundo, uni-vos!

O centenário do alvinegro de Vila Belmiro está chegando, será em abril de 2012.

A ideia é contar a história do Santos FC em  capítulos… pouco a pouco… coisa  de torcedor mesmo. Com números, estatísticas e fichas técnicas.

Algumas vezes um texto, um artigo com um pouco mais de detalhe… um craque, uma partida, um sentimento.

Essa será a estrada que percorrerei nesta página… uma ou duas vezes por semana atualizarei a história do “glorioso alvinegro praiano”.

Vamos começar!

Do nascimento:

O futebol em Santos surge em novembro de 1902, jogado na areias da praia do Boqueirão. Uma semana depois, funda-se o 1º clube de futebol da cidade, o Clube Atlético Internacional. Entre os pioneiros, os irmãos Cross (Haroldo e Vitor) de grande participação no futebol santista da primeira década do século XX.  No dia 15 de novembro, a primeira partida, Internacional x Combinado Paulistano, Mackenzie, Germânia. Vitória do clube santista por 3×1. Um bom começo para o futebol santista. O autor do primeiro gol foi Haroldo Cross.

Em maio de 1903, ocorre um “racha” no Internacional, com os dissidentes fundando o SC Americano.

Em 1904, o CA Internacional disputa uma seletiva para ingressar no Campeonato da Liga Paulista, mas  não consegue a vaga.

Em 1906, Internacional e SC Americano disputam nova seletiva, mas não atingem o objetivo de disputar o principal Campeonato da Liga.

Finalmente, em 1907, tanto o Internacional, como o Americano são convidados a disputar o Campeonato Paulista. Fazem todas suas partidas na Capital.  O Americano fica em 2º lugar e o Internacional na 6ª e última colocação.

No Campeonato de 1908, ocorrem as primeiras partidas em Santos, no campo da Avenida Ana Costa (na altura de onde é hoje a Igreja Coração de Maria), de propriedade do CA Internacional. Como o campo do SC Americano não fora aprovado pela Liga, seus jogos foram todos em São Paulo. Mesmo assim, foi novamente vice-campeão. O Internacional foi o lanterna.

Nova cisão no CA Internacional em 1909, e é fundado o Santos FC de curta duração (encerra suas atividades em 1910). O Internacional é obrigado a disputar mais uma vez uma seletiva para o campeonato e perde a vaga. O Americano disputa o torneio oficial  e fica apenas na 4ª colocação, todas suas partidas são em São Paulo.

1910: O Internacional encerra suas atividades. O Americano volta a ser vice-campeão Paulista, sem atuar em Santos.

Os sócios do Americano resolvem mudar em definitivo a sede do clube para São Paulo em 1911. Neste mesmo ano o clube é novamente vice-campeão Paulista e conquista a primeira vitória internacional do futebol brasileiro, superando o Uruguai por 3×0 (13/08).

Em 1912, O Americano é finalmente Campeão Paulista (e invicto). Sócios do Americano que permaneceram em Santos, inconformados com a ausência do futebol, unindo-se a outros ex-atletas, antigos sócios do CA Internacional e esportistas da cidade resolvem criar um novo clube. Era abril de 1912… Estava nascendo o Santos Foot Ball Club.

Observação: esse texto contou com a grande ajuda de Walmir Gonçalves.

Se quiser ler esse texto na íntegra, acesse: http://brfut.blogspot.com/2009/06/futebol-em-santos.html

Uma história do Santos FC: Quando o alvinegro humilhou Pinochet.

Amigos,

Vou aproveitar o espaço do blog para contar algumas passagens da história do alvinegro de Vila Belmiro, o Santos FC. São histórias baseadas num dos maiores arquivos de jogos do Santos FC… modestamente, o meu… um arquivo continuamente atualizado a mais de 30 anos.

Começaremos pelo “dia que o Santos derrubou Pinochet”.

Que o Santos já foi capaz de interromper guerras civis, de provocar faltas coletivas ao trabalho, ou “fechar o comércio”, todos os santistas conhecem. Mas, uma história pouco comentada é aquela que o Santos FC provocou a humilhação do sanguinário Ditador Chileno, o General Augusto Pinochet.

O caso inicia-se em 1973, mais precisamente em 11 de setembro de 1973, quando Pinochet lidera o bombardeio ao Palácio Presidencial Chileno, provocando a morte do Presidente eleito livremente pelo povo chileno, o socialista Salvador Allende. Com o golpe, os militares executam um plano de prisões e mortes em massa dos aliados do Governo legalmente constituído, chegando ao cúmulo de manter mais de 5.000 pessoas presas (algumas fontes indicam até 10.000 pessoas) no lendário Estádio Nacional de Santiago.

Nesse estádio, em 1962, a Seleção Brasileira tornava-se bi-campeã mundial (com Gilmar, Mauro e Zito em campo, mais Mengálvio, Coutinho, Pepe e Pelé –  contundido – no banco),  e onde o Santos já havia sido campeão dos hexagonais de 65 e 70, além do octogonal de 1968.

Na mesma época estavam sendo jogadas as eliminatórias para a Copa do Mundo de 1974,  e pelo capricho dos deuses do futebol, a tabela marcava: Chile x U.R.S.S.

Local: Estádio Nacional de Santiago.


Mesmo após empatar por 0x0 em Moscou, a forte Seleção Soviética poderia vencer o bom time chileno de Figueroa e Cazsely, em Santiago.
Porém, os dirigentes soviéticos recusavam-se a jogar num estádio transformado em campo de concentração, onde os militares chilenos prenderam, torturaram e mataram (no centro do gramado,  4 em 4 presos de cada vez) intelectuais, artistas, sindicalistas, socialistas e comunistas, entre eles o compositor Victor Jara (que além de compositor, era músico, teatrólogo, jornalista e comunista).

Victor Jara teve as mãos amputadas durante as torturas sofridas e foi morto a tiros, no interior do Estádio Nacional.

Os soviéticos afirmavam que jogariam em qualquer lugar no Chile, menos no Estádio Nacional de Santiago.

O Presidente da FIFA, o inglês Sir Stanley Rous, nem quis ouvir os argumentos soviéticos e manteve o jogo no Estádio Nacional.

A União Soviética prometeu e cumpriu: não viajou até Santiago. Sendo assim, o Chile iria classificar-se para a Copa da Alemanha sem jogar, como de fato, aconteceu.

Mas, os dirigentes da Federação Chilena de Futebol, em sintonia com os militares golpistas, queriam uma festa para celebrar a vitória do Chile frente aos “comunistas soviéticos”. E para não ficar sem futebol, convidaram o Santos FC para enfrentar o Selecionado Chileno, com a TV local transmitindo para a Europa e América.

Por um bom punhado de dólares (30.000 dólares americanos), os dirigentes santistas aceitaram o amistoso, e a delegação do alvinegro praiano seguiu viagem para Santiago.

Lá chegando, o Santos entrou no então sinistro estádio Nacional de Santiago.

Apenas 25.000 presentes (os tempos não eram favoráveis a grandes aglomerações, e o comparecimento ao estádio Nacional poderia trazer recordações nada agradáveis à boa parte do povo chileno). Os santistas, alheios aos problemas políticos, defendiam a imaculada camisa branca contra “la roja” (como a seleção chilena é conhecida).

Para o desgosto do ditador Pinochet, o jogo terminou com uma grande goleada santista – 5×0, estragando a festa preparada pelos cartolas e militares Chilenos e sendo uma saborosa vingança daqueles que abominam a violência e a brutalidade (lembrando episódio semelhante acontecido em Berlim, nas Olimpíadas de 1936, onde o atleta negro Jesse Owens ganhou medalha de ouro nas provas de atletismo, com Hitler no estádio).
Interessante saber que a imprensa brasileira pouco divulgava os motivos soviéticos, insistia que seria por meros caprichos políticos, por não concordar com o governo chileno. Era uma época de censura nos meios de comunicação, além do fato de que o regime de Pinochet era simpático aos militares brasileiros…

Os dirigentes da Federação Chilena pretendiam homenagear o Rei do Futebol… e Pelé não jogou pelo Santos FC nesse dia, alegou uma contusão. Ou será que se recusara a participar de tal evento?

Bom, se não pôde ou se não quis, apenas o Rei do Futebol poderá esclarecer.

O que fica para nós, santistas, é que além golear uma das principais seleções da América do Sul, o Santos FC humilhou e estragou a festa preparada ao Ditador, para a alegria daqueles que gostam de futebol, da liberdade e da vida.

Segue a ficha técnica da partida:

21/11/1973 Santos FC  5×0 CHILE
Local: Estádio Nacional – Santiago (CHIL)
Competição: Amistoso
Público: 25.000
Árbitro: Rafael Hormozabal
Gols: Nenê 21′ e 38′, Edu 26′ e Eusébio 29′ e 65′
SFC: Cejas; Hermes, Marinho Perez, Vicente e Roberto; Carlos Alberto Torres e Leo Oliveira (Nelsi); Mazinho, Eusébio, Nenê (Cláudio Adão) e Edu.
Técnico: Pepe
CHILE: Olivares; Machuca, Figueroa, Quintano e Arias; Rodriguez e Valdez (Yavar); Reinoso, Cazsely, Ahumada e Crisosto (Velez).

E para encerrar, um pequeno trecho (já traduzido à Língua Portuguesa) do último poema escrito  por Victor Jara, feito no interior do Estádio Nacional, pouco antes de ser assassinado:


“Somos cinco mil
nesta pequena parte da cidade.
Somos cinco mil.
Quantos seremos no total,
nas cidades e em todo o país?
Somente aqui, dez mil mãos que semeiam
e fazem andar as fábricas.


Quanta humanidade
com fome, frio, pânico, dor,
pressão moral, terror e loucura!


Seis de nós se perderam
no espaço das estrelas.
Um morto, um espancado como jamais imaginei
que se pudesse espancar um ser humano.
Os outros quatro quiseram livrar-se de todos os temores
um saltando no vazio,
outro batendo a cabeça contra o muro,
mas todos com o olhar fixo da morte.


Que espanto causa o rosto do fascismo!”